Trabalho com aquilo que o escaneamento não consegue segurar.
Uso LiDAR de celular, fotogrametria e nuvens de pontos para registrar festas populares, terreiros, santos de gesso e corpos em movimento. O que volta nunca é cópia: é uma nuvem esburacada, cheia de ruído, onde falta exatamente a parte que interessava. Chamo esse método de smartografia — e aos restos que ele deixa, rastilhos.
A captura 3D foi construída no Norte para inventariar o mundo com precisão. Apontada para uma procissão ou para uma bateria de escola de samba, ela falha. Essa falha não é defeito técnico a corrigir: é o assunto. É onde a cultura popular escapa ao inventário — e onde o trabalho começa.
bio
Will Figueiredo (Novo Hamburgo, RS) é artista visual e pesquisador. Mestre em Poéticas Visuais pela UFRGS, é pesquisador do OM-LAB/CNPq e vencedor do 1º Prêmio de Arte Digital da Universidad de Sevilla (Espanha). Sua prática articula tecnologias de captura 3D, cosmologias afro-brasileiras e indígenas e pensamento decolonial. Vive e trabalha entre Novo Hamburgo e São Paulo.